Nos recantos da minha alma eu sinto os vapores quentes de outros tempos,
como se as farpas se voltassem a espetar em meus braços. Não sei como
meu corpo ainda não range, aquele ranger de portas de casa antiga,
aquele trautear do soalho encerado pelos últimos raios de sol do dia.
Não sei porque meus olhos não mentem, estão translúcidos,
vazios,intactos. Só se revolta a alma, se bem que com um cansaço que
ainda se vai cansando.
Espetaram-me facas por todos os lugares proibidos do meu corpo e eu não
sinto. A sensibilidade crua foi-se embora, fugidia como a esperança, é
como se hoje os espelhos da casa onde habito se tivessem embaciado. Por
mais que minhas mãos travem uma luta só sua, para limpar a neblina, a
imagem reflectida será sempre fria, nunca será real. Derrepente um
espelho despedaça-se em três. O número simbólico que nos aproxima da
sorte, do pronto, da decisão. Olho fixamente e reparo que a forma dos 3
vidros, que outrora foram uma só realidade me mostram sem sombras nem
enfeites: o presente, o passado e o futuro. Só me interessa olhar a
minha face no espelho do passado, a inexistência da vivacidade dos meus
olhos impede-me de reconhecer o futuro. Os meus olhos são passado.
Passado que se fantasia de presente e se deita na cama com o futuro. Não
sei o porquê, mas a minha alma dá à luz o meu passado.
quinta-feira, julho 11
quinta-feira, junho 6
Aguarelas quebradas de um azul que não se escurece.
A cor branca e doce da cocaína espalha-se flamejante por todas as zonas do meu corpo, sem que o coração a acompanhe fielmente no trajecto. A tua língua ácida percorre o meu pescoço para me anestesiar.
Não deixo.
Recuso.
É tarde demais para me tirares do quadro que pintei esta noite. Aguarelas quebradas de um azul que não se escurece.
Não deixo.
Recuso.
É tarde demais para me tirares do quadro que pintei esta noite. Aguarelas quebradas de um azul que não se escurece.
A Lucidez Perigosa
Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
(Clarice Lispector)
quarta-feira, agosto 22
"Mais Nada Se Move Em Cima Do Papel"
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo
os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado
encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada
desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem
o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão
assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração
Al Berto, “O Medo”
segunda-feira, agosto 13
Sente-me o gosto
Tomaste-me em teus braços como o mar
que se envolve no céu gelado de branco assustado pelo vento que o parece
rasgar.
Sei que a alma te agarra enquanto a
boca se deleita no teu ombro. Dou-te um beijo suave e percorro o teu desgosto.
Tu ofereces-me o mundo em troca
sentes-me o gosto.
As tuas palavras sonham mas trazem-me
uma realidade que já esqueci. Como se a vida fosse só tua e eu a vivesse
através de ti. Palavras. Tantas palavras que se conjugam num amor pintado nas paredes
do quarto.
Dou-te sendo tua, os meus pés que são
teu caminho, repleto de traços. Os traços da tua pele que me alentam o corpo
cansado, rasgado, recortado vezes sem conta e por ti junto, reunido, inteiro
pela primeira vez desde que é corpo.
Agora digo-me inteira, já não me reparto
em pedaços. A história respira nos pedaços. Os pedaços são o espaço que ocupa a
história, A minha história é um conto que roça levemente a ficção, escreve-me o
final, eu que se deu no outro. Escreve. Escreve-me nos teus gestos, prende-me
ao teu abraço, tatua-me com o sal das minhas lágrimas em teu peito. Faz-me de
vez tua e deixa-me adormecer no meu próprio cansaço.
sexta-feira, maio 25
Sílaba
Nas tuas mãos de seda encrespada que rouba o violeta, eu derramo os olhos que não fechei. Aguardo timidamente o toque das mãos, uma sílaba que fecha as palavras me reparte sem me magoar. E eu peço tempo, recuo no espaço. Dou-te o lugar, tu dás-me o amor em teu abraço, quente que queima aos poucos a pele das costas que ferida levemente se cura quando é tocada.
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