sábado, março 3


JILL SCOTT - HE LOVES ME
Em teus braços me consagraram senhora do teu corpo aveludado, minado de um contrassenso em cada sílaba do teu abraço. Nos teus olhos os pontos amarelados sobressaiem, no calor da tarde, não sei se os resgatei no meu olhar afastado.

sexta-feira, julho 3

As horas ultrapassaram o ponteiro do relógio, como virgulas que pausam o barulho ensurdecedor de uma qualquer cidade lá longe, recôndita, esquecida numa permanência desigual. Quando regressei ao meu corpo, aquele que me acompanhou em todos os dias depois da tua perda, apercebi-me de que um corpo se torna cru com uma facilidade quase indigna. Pareceu-me certo, voltar a procurar-te, não me resignar a um esquecimento facilitador daquilo que me pode trazer a desistência de te encontrar. Quanto mais passos eu dava, mais contrapontos me desapontavam, mais falhas no passeio me desencontravam, mais corropios me desencadeavam. Eu não te percebi, eu nunca te compreendi, essa é a verdade mais pura do nosso entendimento. EU e TU SEMPRE FOMOS ESTRANHOS QUE DERAM EM MÃOS sem responsabilidade QUE SE BEIJARAM sem pedido ou ajuste de contas. E agora cá estou eu e tu dois conhecidos que se encontram na estranheza do que um dia acharam conhecer, uma pele que se conhecia e que agora se repele. Como? Porquê? Talvez teimosia, talvez a doçura dos anos a menos. Não sei. Tenho medo de descobrir, medo que seja demais. TARDE. DEMAIS.

segunda-feira, outubro 7

A ideia de pegar na caneta desta vez, torna-se declaradamente assustadora. Como se a tinta abrigada em seu corpo plástico me contasse em pleno, sem nenhuma falha a apontar, o segredo que guardo.
Sinto o mundo a pesar-me na mão que escreve, direita que se  entorna em cada palavra-lágrima que se derrama no papel.






quarta-feira, setembro 25

quinta-feira, julho 11

Os meus olhos são passado

Nos recantos da minha alma eu sinto os vapores quentes de outros tempos, como se as farpas se voltassem a espetar em meus braços. Não sei como meu corpo ainda não range, aquele ranger de portas de casa antiga, aquele trautear do soalho encerado pelos últimos raios de sol do dia.
Não sei porque meus olhos não mentem, estão translúcidos, vazios,intactos. Só se revolta a alma, se bem que com um cansaço que ainda se vai cansando.
Espetaram-me facas por todos os lugares proibidos do meu corpo e eu não sinto. A sensibilidade crua foi-se embora, fugidia como a esperança, é como se hoje os espelhos da casa onde habito se tivessem embaciado. Por mais que minhas mãos travem uma luta só sua, para limpar a neblina, a imagem reflectida será sempre fria, nunca será real. Derrepente um espelho despedaça-se em três. O número simbólico que nos aproxima da sorte, do pronto, da decisão. Olho fixamente e reparo que a forma dos 3 vidros, que outrora foram uma só realidade me mostram sem sombras nem enfeites: o presente, o passado e o futuro. Só me interessa olhar a minha face no espelho do passado, a inexistência da vivacidade dos meus olhos impede-me de reconhecer o futuro. Os meus olhos são passado. Passado que se fantasia de presente e se deita na cama com o futuro. Não sei o porquê, mas a minha alma dá à luz o meu passado.

quinta-feira, junho 6

Aguarelas quebradas de um azul que não se escurece.

A cor branca e doce da cocaína espalha-se flamejante por todas as zonas do meu corpo, sem que o coração a acompanhe fielmente no trajecto. A tua língua ácida percorre o meu pescoço para me anestesiar.
Não deixo.
Recuso.
É tarde demais para me tirares do quadro que pintei esta noite. Aguarelas quebradas de um azul que não se escurece.





A Lucidez Perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já  me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade  -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

(Clarice Lispector)

quarta-feira, agosto 22

"Mais Nada Se Move Em Cima Do Papel"





mais nada se move em cima do papel 
nenhum olho de tinta iridescente pressagia 
o destino deste corpo 

os dedos cintilam no húmus da terra 
e eu 
indiferente à sonolência da língua 
ouço o eco do amor há muito soterrado 

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço 
no interior desta ânfora alucinada 

desço com a lentidão ruiva das feras 
ao nervo onde a boca procura o sul 
e os lugares dantes povoados 
ah meu amigo 
demoraste tanto a voltar dessa viagem 

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas 
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão 

assim me habituei a morrer sem ti 
com uma esferográfica cravada no coração 

Al Berto, “O Medo”

segunda-feira, agosto 13

Sente-me o gosto


Tomaste-me em teus braços como o mar que se envolve no céu gelado de branco assustado pelo vento que o parece rasgar.
 Os teus dedos são tão leves na minha pele que só de mente presente os sinto deslizar. Os teus olhos mudam de cor ao passo que as tuas mãos envolvem todas as linhas do meu corpo suado, com um brilho quente, esquartejante, embriagado que se afasta ao relento. Não sei o que faço. A minha pele percorre-te ofegante sem feridas para contemplar. Arrancaste estas feridas sem deixar marcas, deixando imaculada a tela do meu corpo.
Sei que a alma te agarra enquanto a boca se deleita no teu ombro. Dou-te um beijo suave e percorro o teu desgosto.
Tu ofereces-me o mundo em troca sentes-me o gosto. 
As tuas palavras sonham mas trazem-me uma realidade que já esqueci. Como se a vida fosse só tua e eu a vivesse através de ti. Palavras. Tantas palavras que se conjugam num amor pintado nas paredes do quarto.
Dou-te sendo tua, os meus pés que são teu caminho, repleto de traços. Os traços da tua pele que me alentam o corpo cansado, rasgado, recortado vezes sem conta e por ti junto, reunido, inteiro pela primeira vez desde que é corpo.
Agora digo-me inteira, já não me reparto em pedaços. A história respira nos pedaços. Os pedaços são o espaço que ocupa a história, A minha história é um conto que roça levemente a ficção, escreve-me o final, eu que se deu no outro. Escreve. Escreve-me nos teus gestos, prende-me ao teu abraço, tatua-me com o sal das minhas lágrimas em teu peito. Faz-me de vez tua e deixa-me adormecer no meu próprio cansaço.

sexta-feira, maio 25

Sílaba

Nas tuas mãos de seda encrespada que rouba o violeta, eu derramo os olhos que não fechei. Aguardo timidamente o toque das mãos, uma sílaba que fecha as palavras me reparte sem me magoar. E eu peço tempo, recuo no espaço. Dou-te o lugar, tu dás-me o amor em teu abraço, quente que queima aos poucos a pele das costas que ferida levemente se cura quando é tocada.



.

Na ponta da caneta eu deslizo as minhas canções de amor. Tu. Tu, meu amor.

terça-feira, abril 24

Olhos cor da àgua

Não sei quantas vezes te encontro em mim como se me perdesse de sentidos e te encontrasse em cada traço que perfaz o meu olhar. Como se os olhos se repartissem em pétalas cruzadas ela madrugada que aos teus olhos se desfazem em tons de violeta trespassando as minhas mãos que te pedem para falar. Sossego-te, arranco-te do som inquieto que não te deixa dormir, das vozes que cantam aos teus ouvidos ruídos que fazem o teu coração bater acelaradamente todas as noites. Todas as noites eu te beijo enquanto o teu sono é descansado. Quando ele se corrói de escuridão e luzes negras espelhadas na tua face eu recolho-me ao meu lugar. Sei que não sou daí. Que nunca sentirei na pele as palavras que contas e aquelas que guardas só para ti. Cuidas de mim. Eu sei. Eu só queria fazer o mesmo por ti. Deitar-te no meu colo e fazer-te adormecer, para que acordasses sem esse peso que te fecha os olhos pintados de pedaços de solidão que quando olham os meus se dividem em pedaços de verde vivo tão vivo que eu não sei explicar. Olha-me com esses olhos, sente todos os pormenores de mim em cada olhar. Eu estarei sempre aì. Nos teus olhos. Nos olhos que eu roubei para mim. Olhos cor da água. Olha-me com os nossos olhos. Profundamente. Cegamente, olha-me com a cor da àgua.

domingo, janeiro 22

Amar-te

Este cheiro a terra que se entranha no meu olfacto, relembra-me os dias em que a chuva abençoou os nossos beijos e abraçou os nossos passos.
Quando paraste, os teus pés uniram-se ao chão e dentro de ti era sonhado mais um momento que não viveste, que pressentes que não vais viver mas que se torna tão real dentro de ti. Os teus olhos recheados de brilho iluminam os meus, a minha cabeça pensa tanto. Tentei ler-te mais uma vez. Mas tu mostras uma página, e voltas a fechar o livro. A história é longa e eu tenho medo de não me dares tempo de a ler, quem sabe sequer se me darás o privilegio de a conhecer. Completa. Intensa. Verdadeira. Duvido. Sempre guardarás para ti o que realmente dói. Podes até contá-lo. Mas partilhá-lo? Nunca. Com a partilha, vem a dádiva. Tu não me queres dar o teu sofrimento que te corroí, apesar de pareceres sempre tão imune, eu sei que ele ferve nas tuas veias, é pesado na tua alma e naquela noite caiu leve pelos teus olhos e fechou-se nos teus lábios. Deste-me a beber um sal amargo. Eu dei-te o doce das minhas mãos e o silêncio  para te dar o espaço. Amar-te é isto.

sábado, janeiro 21

A abstracção total da existência que nos carrega nos braços e nos leva para outra dimensão onde nos encontramos nus de tudo o que nos envolve. Paramos. Só a mente não resiste a continuar. Começamos a viagem, acendemos um cigarro que no fumo guarda as nossas histórias e que a cada beijo nos leva o cansaço. Até que atingimos o nosso destino.  LEVE.  Só nós por dentro e o mundo lá fora. Mas um fora que não nos toca, que não nos abraça. Estamos desprotegidos de fora, a nossa protecção surge do interior do nosso corpo. O coração embala-nos. Os nossos olhos fecham-se. Um momento torna-se eternidade. Conhecemos a felicidade. Agora podemos fechar a porta e voltar ao mundo outra vez.

quarta-feira, janeiro 18


A mulher dos lábios vermelhos

A mulher dos lábios vermelhos estava sentada no chão. Os seus olhos procuravam respostas que o chão manchado onde se apoiava, não sabia dar. Olhou para o tecto, encontrou um vazio branco que lhe cegou os olhos ansiosos de ouvir palavras e conforto. Acendeu um cigarro e permaneceu ali embalada pelo fumo. O cigarro escondeu a dor, apagou por segundos  a tristeza que se desenrolava nos gestos, num simples respirar. No chão o cinzeiro laranja aceso de beatas. Apagou o cigarro marcado pelo batom vermelho. Pediu ajuda mas a voz seca não o permitiu, Nos olhos acendeu-se uma luz que cheirava a morte. Ela morreu e ninguém deu conta. Nos sorrisos tanta dor e ninguém viu. Nos olhos tanta mágoa e ninguém os leu. Ela morreu. Tu não viste, Não sentiste. Não sabes. Ela partiu.

terça-feira, dezembro 20

As ruas estão cheias de gente que passa por mim no seu próprio compasso fechado, pesado mas ao mesmo tempo musical. O som da calçada acompanha os seus passos, a luz da cidade ilumina os seus rostos que trazem histórias, memórias de várias vidas. E aqui neste lugar cruzam-se tantas caras diferentes, milhares de corações que batem de forma única,cada um à sua maneira e no fundo somos todos iguais. Cada um com as suas feridas, cada um com as suas alegrias, mas no fundo a carne é a mesma só o coração bate a um ritmo diferente. E é no coração desta cidade que estes corações se juntam no simples gesto de existir. Porque a cidade os acolhe de dia ou de noite, a todas as horas. Nunca está sozinha, está sempre acompanhada de almas com algo para contar, com olhos que denunciam tantas palavras, tantos sentimentos presos no olhar.